O Defensores RPG (na verdade o 3D&T) “criou” uma Característica peculiar para um sistema de RPG: o Poder de Fogo (PdF). O PdF mostra a capacidade do seu personagem de atacar à distância. Só isso. E os livros básicos defendem que qualquer coisa pode ser definida como PdF: tiros de pistola; bolas de fogo; cortes dimensionais; cuspes; melancias sorridentes…
E ainda explica que o PdF é intransferível: você possui PdF 3 com uma bazuca nas mãos, mas se você passa para o seu companheiro, e o PdF dele é 0, vai continuar sendo 0.
Esta característica é alienígena para os principais jogos de RPG que existem hoje. Todos eles estabelecem previamente quanto de dano cada objeto (ou magia, ou poder ou sei lá mais o que) causa quando atirado contra alguém. No Sd20, uma espada longa vai causar 1d8 de dano, independente de quem segurá-la – o máximo que o personagem determina são os modificadores. No Defensores RPG, se você tem Força 3, você vai causar dano de Força 3 com ou sem espada.
Isto faz com que RPGistas de outras “escolas” tenham pavor de Defensores RPG. Eles acusam o sistema de ser ridículo por permitir que qualquer coisa cause qualquer dano (outra hora falo mais sobre as críticas que eu já ouvi por aí). São críticas como “eu posso fazer uma menininha estúpida que ataca com beijos de luz causar tanto dano quanto artilharia pesada! Isto é ridículo!”
Naturalmente que existe aí, interpretações erradas das regras do jogo. Primeiro porque se eu quiser em Gurps criar um “antecedente incomum – magias psicodélicas da família Carrol” – e ter a magia “Beijos assassino” que causa 10d+5 de dano, eu posso. Segundo porque quem define o que pode e o que não pode ser feito é o mestre e os jogadores em conjunto, qualquer que seja o jogo de RPG.
Mas é interessante notar que este sistema inventou uma nova forma de criar personagens.
Nos outros sistemas, você cria personagens na seguinte ordem: define na sua imaginação o que ele é capaz de fazer e tenta traduzir aquilo nas regras do jogo. Assim, primeiro você imagina que seu personagem é um pistoleiro, e depois descobre que para dar tiros de pistola você precisa de ter perícia e dinheiro na ficha, e descobre que pistolas causam X dados de dano.
Assim, você monta um conceito para o personagem, e depois vai comprando as características que precisa para reproduzir os efeitos que imaginou, repeitando os limites de pontuação e de equilíbrio que o mestre determina.
No Defensores, você pode criar personagens assim se quiser. Você primeiro imagina pistoleiro, depois você se espelha nisso para comprar PdF 2 e Tiro Múltiplo para ter duas pistolas.
Quando você tenta seguir na ordem inversa, você fica bem mais limitado. Você lê no livro que existem pistolas, e que ela causa X dados de dano. Aí você monta seu personagem baseando-se nessa regra para que ele seja um pistoleiro.
Aqui que o Defensores se destaca. Ele permite que você veja um atributo (por exemplo, Tiro Múltiplo), e uma vez definido o efeito em regras dela, você imagina o efeito que quiser. Ou seja, se você quer um Tiro Múltiplo, compre-o, e escreve na sua história que você usa o Tiro Múltiplo quando saca duas pistolas especiais e atira como em filmes americanos: para todos os lados!
Ou seja, a criação de personagem nas regras é muito independente da criação do estilo e descrição dos conceitos dele. Isto facilita tanto a criação dos números quanto a criação do personagem descrito.
Tem quem ache isto um defeito. Não é.
Não é porque ele garante o equilíbrio para quem gosta de jogos justos. Independente do que você quer, o que você vai poder fazer está aí.
Não é também porque só permite personagens ridículos os jogadores que quiserem. Se você quer jogar Ravenloft, e alguém resolve querer criar um Paladino elfo-negro mulherengo você cria. Se quer colocar um Jedi em Gurps Fantasy, coloca. Em Defensores RPG, funciona da mesma forma. Os jogadores limitam os personagens de acordo com o que querem do jogo.
Não é um defeito porque você tem que lembrar de interpretar que uma pessoa comum não deveria ter acesso a nada que causasse mais de 0 ou 1 de dano. Todo dano além destes valores é causado por alguma razão especial do seu personagem.
Não é um defeito, por fim, porque libera, ao invés de limitar. Um sistema de RPG tem de dar sugestões aos jogadores. Não normas a serem cumpridas.
Construa seu personagem na ordem que quiser. Primeiro a ficha ou o conceito? Ou cada hora um pedaço dos dois? Mantenha o equilíbrio com os demais jogadores e sempre passe pela opinião do mestre. Se ele não gostar de alguma coisa, provavelmente ele vai ter razão pra isso.


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